segunda-feira, 27 de outubro de 2014

 IMERGINDO-ME EM RECORDAÇÕES
                                                                                                                               Evellen Layza  

      Lembro-me como se fosse ontem: bem de tardezinha, o sol quase se pondo, e eu já estava na rua vendendo sorvete na minha cidade de Sorocaba, que nem asfaltada era, pura terra. Recordo-me até hoje daquele cheiro de mato molhado. Nossa vida era difícil pois papai ganhava muito pouco, apenas  o suficiente para não morrermos de fome e frio. Enquanto caminhava, a poeira batia em meus olhos e os fazia ficar cheios d’ água.
      Frequentei semanalmente  a casa do meu avô paterno, que tinha um enorme quintal com galinheiros, horta e pomar, e um riacho que vinha de longe, torcendo –se pelas profundezas da mata e ali se alargava preguiçosamente, como  que para repousar as águas cansadas de rolar entre as pedras. Mangueiras imensas com sobras frescas e balanços tentadores amarrados nos galhos. Ali ficava horas inteiras saboreando, a poesia simples daquele pedaço amável da natureza.
      Então cresci e com mais ou menos sete anos de idade ganhei uma bicicleta. Naquele mesmo dia eu desci toda a rua, mas ela se parecia mais com uma montanha de tão alta. Como o costume de todos os meus amigos, eu descia correndo, no máximo que a bicicleta permitia, fazia  a curva na esquina e subia a rua deles, que era uma subida, por isso tinha que embalar bem. De repente minha bicicleta foi para o outro lado da rua e bati o pneu da frente na sarjeta do outro lado. Perdi as contas de quantas vezes eu vi o horizonte mudando o céu para a terra e vice-versa e fui parar a cerca de cinco metros da sarjeta.
     Com nove anos comecei a trabalhar na guarda-mirim para ajudar meu pai e também estudava. Não gostava de ir para a escola, mas era esperto e isso acabava ajudando.
     Como sempre era costume,  aos domingos eu, meus pais e meus irmãos íamos à igreja e foi lá que conheci uma linda moça pela qual me apaixonei. Passaram-se os anos e eu me casei com aquela bela jovem. Eu tinha vinte e três anos e ela vinte e um. Após três anos, tornei-me  papai. Minha filha nasceu linda e saudável, um pequeno anjo em nossas vidas. Ela cresceu...cresceu...  Cada dia mais linda.
      Após nove anos, lá veio outra grande notícia: outro anjinho estava prestes a nascer. Que alegria!!!
Enfim agradeço muito a Deus por tudo que já passei e pela educação que recebi dos meus pais e continuo lutando muito para que minhas filhas tenham uma infância e um futuro bem, bem melhor do que o meu. Esses momentos não voltam mais: a magia encantadora de ser uma criança, sem drogas, sem violência e pura, muito pura.
     São belas passagens que só ficam guardadas na lembrança.
    Texto baseado em entrevista  com Esequiel A, pai da autora.

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