IMERGINDO-ME EM RECORDAÇÕES
Lembro-me como se fosse ontem: bem de tardezinha, o sol quase se pondo, e eu já estava na rua vendendo sorvete na minha cidade de Sorocaba, que nem asfaltada era, pura terra. Recordo-me até hoje daquele cheiro de mato molhado. Nossa vida era difícil pois papai ganhava muito pouco, apenas o suficiente para não morrermos de fome e frio. Enquanto caminhava, a poeira batia em meus olhos e os fazia ficar cheios d’ água.
Frequentei semanalmente a casa do meu avô paterno, que tinha um enorme quintal com galinheiros, horta e pomar, e um riacho que vinha de longe, torcendo –se pelas profundezas da mata e ali se alargava preguiçosamente, como que para repousar as águas cansadas de rolar entre as pedras. Mangueiras imensas com sobras frescas e balanços tentadores amarrados nos galhos. Ali ficava horas inteiras saboreando, a poesia simples daquele pedaço amável da natureza.
Então cresci e com mais ou menos sete anos de idade ganhei uma bicicleta. Naquele mesmo dia eu desci toda a rua, mas ela se parecia mais com uma montanha de tão alta. Como o costume de todos os meus amigos, eu descia correndo, no máximo que a bicicleta permitia, fazia a curva na esquina e subia a rua deles, que era uma subida, por isso tinha que embalar bem. De repente minha bicicleta foi para o outro lado da rua e bati o pneu da frente na sarjeta do outro lado. Perdi as contas de quantas vezes eu vi o horizonte mudando o céu para a terra e vice-versa e fui parar a cerca de cinco metros da sarjeta.
Com nove anos comecei a trabalhar na guarda-mirim para ajudar meu pai e também estudava. Não gostava de ir para a escola, mas era esperto e isso acabava ajudando.
Como sempre era costume, aos domingos eu, meus pais e meus irmãos íamos à igreja e foi lá que conheci uma linda moça pela qual me apaixonei. Passaram-se os anos e eu me casei com aquela bela jovem. Eu tinha vinte e três anos e ela vinte e um. Após três anos, tornei-me papai. Minha filha nasceu linda e saudável, um pequeno anjo em nossas vidas. Ela cresceu...cresceu... Cada dia mais linda.
Após nove anos, lá veio outra grande notícia: outro anjinho estava prestes a nascer. Que alegria!!!
Enfim agradeço muito a Deus por tudo que já passei e pela educação que recebi dos meus pais e continuo lutando muito para que minhas filhas tenham uma infância e um futuro bem, bem melhor do que o meu. Esses momentos não voltam mais: a magia encantadora de ser uma criança, sem drogas, sem violência e pura, muito pura.
São belas passagens que só ficam guardadas na lembrança.
Texto baseado em entrevista com Esequiel A, pai da autora.
Texto baseado em entrevista com Esequiel A, pai da autora.

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