RECORDAÇÕES DE UMA VIDA
Mayara de P Neres
Estava escutando rádio e de repente tocou a música “Meu Reino Encantado” com o cantor Daniel. Enquanto a ouvia eu me recordei do passado e do tempo em que essa melodia, gravada por outro cantor, fez parte de minha vida.
Quando tinha oito anos morava em uma casa feita de barro, chão sem piso. Dormia em uma esteira feita de palha ou taboa (secava a palha ou taboa, trançando-a) estirada no chão. Usávamos roupas feitas de saco de farinha.
Quando tinha oito anos morava em uma casa feita de barro, chão sem piso. Dormia em uma esteira feita de palha ou taboa (secava a palha ou taboa, trançando-a) estirada no chão. Usávamos roupas feitas de saco de farinha.
Minha infância não foi fácil pois não pude estudar porque meu pai não deixava. Tentei estudar sem seu consentimento e consegui ir até o quarto ano. Meus pais iam muito cedo para a roça eu ficava para cuidar da casa. Eu fazia toda a tarefa que tinha em casa, de modo que meus pais não desconfiassem, em seguida colocava o uniforme e seguia rumo à escola. Depois de quatro horas eu voltava para casa, tirava o uniforme e colocava-o embaixo do travesseiro, trocava de roupa e passava lama no corpo para parecer que estava suja. Revia tudo para conferir se estava como o esperado e levava a marmita para meus pais que estavam na roça. Minha mãe me ajudava, pois ela achava que se eu estudasse poderia ter um emprego melhor e poderia tirar minha família do sufoco.
Mas um dia meu pai foi trabalhar e voltou cedo, me pegou colocando o uniforme embaixo do travesseiro e me sujando. Por um segundo fui ao banheiro e, quando voltei, meu uniforme e meus materiais estavam todos picados. A partir daí não pude mais ficar em casa e tive que trabalhar na lavoura.
Tempos depois, vim para Sorocaba, consegui me alojar em uma simples casinha na vila Hortência, em um cortiço, com minha irmã. Depois fui morar na Vila Santa, perto da igreja Santa Rita. Finalmente com quatorze anos recomecei os estudos na escola Visconde do Porto Seguro.
Quando estava com quinze anos minha vida melhorou muito e eu até ia visitar meus irmãos no sítio e lá me lembrava das brigas e outras coisas. Fui até perto do poço para sentir o cheiro de mato molhado nos dias em que brincávamos na chuva.
O lugar mais longe que já fui é Curitiba, no Paraná. Viajei pois minha patroa, me disse para ir acompanhar a sua filha e que as despesas já estavam todas pagas. A viagem foi em época de carnaval, bem no dia do seu aniversário. Além de eu acompanhar a jovem na viagem, era também um presente de aniversário para mim. Foi muito emocionante, nunca vou me esquecer de meus amigos. Foi uma amizade rápida, mas passamos cada momento maravilhoso no porto João Paulo segundo. O trem passava bem em frente, mas infelizmente não tive a oportunidade de entrar pois estava fechado.Também me lembro da pedra de tartaruga, mas não cosegui vê-la porque ficava em Vila Velha. Tenho muitas fotos de lá.
Hoje moro no jardim Maria Eugênia. Antigamente antes 1981 esse lugar era uma fazenda e barro. Depois surgiu um conjunto de casas populares. Quando saiamos para trabalhar ou passear, depois de uma chuva tínhamos que colocar uma sacolinha no pé para entrar no ônibus para não sujá-lo.
No início as casas não tinham muro, cada vizinho construía o seu para não haver briga, porque assim ninguém demolia os muros dos outros. Naquela época só existia o mercado da Zefa, não tinha açougue, supermercado... Agora temos tudo, até shopping.
Meu casamento foi outro fato de que me lembro muito bem pois foi especial. Me casei com vinte e três anos na igreja São Carlos Borromeu. Houve também três casamentos no mesmo dia, depois do meu. Não conhecia as outras noivas, mas elas enfeitaram a igreja para mim. Não gastei nada.
Após um ano de casada fui embora para São Paulo, trabalhei na Telefunken durante o dia e meu marido também trabalhava lá, só que à noite.
Depois de um ano engravidei, não era casada no civil pois meu marido era mais novo que eu, só tinha dezoito anos e seu pai não quis assinar o documento porque ele era menor de idade. Quando ele fez vinte e um anos casamos no civil porque não precisaríamos que outros assinassem para nós. Nessa época não pude trabalhar porque estava grávida, já de oito meses e meio. Certa vez, quando estava passando no supermercado, esperando o ônibus, minha bolsa estourou, então fui correndo a pé para o hospital mais próximo que era o "Zona Sul" em Santo Amaro. Meu parto foi normal e correu tudo bem.
Quando minha filha fez um ano minha irmã foi me buscar em São Paulo para vir morar em Sorocaba. Ela construiu um quarto de madeira nos fundos de sua casa para eu e minha filha morarmos. Minha irmã olhava a menina para eu ir trabalhar. Meu marido começou a trabalhar na fábrica Santo António que hoje é o shopping Pátio Cianê. Trabalhei a vida inteira como empregada doméstica, até minha aposentadoria. Às vezes não tinha onde deixar minha filha então eu a levava para trabalhar comigo. Depois ela, com três anos, entrou na creche da prefeitura onde hoje é o terminal do interbairros na vila Hortênsia. Quando ela tinha sete anos foi estudar no Sesi onde ficou até a sexta série do ensino fundamental.
Foi nessa época comprei minha casa, no jardim Maria Eugênia. Minha garota foi estudar na escola ”Professora Guiomar Camolesi Souza” onde ficou até o sétimo ano do ensino fundamental. Alguns anos após, quando estava com dezoito, minha filha engravidou da minha neta Mayara que foi um presente de Deus e que chegou para alegrar a minha vida. Depois de um ano e sete meses outro neto chegou também para alegrar-nos: o Matheus.
O aniversário que mais me emocionou foi em 2011 e 2012 que meus amigos fizeram uma festa surpresa para mim. Foram feitas três festas: uma em minha casa com minha família, uma no clube Konka Music Bar, que já não existe mais, e outra na casa de minha amiga.
Peço a Deus que me leve somente quando meus netos estiverem casados e com filhos porque me emociono a cada festa deles. No aniversário do Matheus fomos ao parque Natural Chico Mendes e senti novamente o cheiro de mato molhado e percebi de Deus me deu visões e cheiros para me lembrar que meus pais ainda se lembram de mim.
Então foi assim a minha vida, mas agora tenho que correr porque a água do meu chá vai secar.
Texto produzido a partir de entrevista com a senhora Anésia M de P, avó da autora
Texto produzido a partir de entrevista com a senhora Anésia M de P, avó da autora

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